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SBTMO ENTREVISTA: USO DE PLASMA NA COVID-19

Atualizado em: 10/04/2020


A comunidade científica mundial está lançando mão de todas as armas que dispõe na busca por soluções tanto preventivas quanto terapêuticas contra a Covid-19. O Brasil é um dos países que tem se colocado nesta linha de frente. 

Entre os projetos nacionais que se demonstram promissores está o uso do plasma de convalescentes da Covid-19 como alternativa terapêutica experimental para os pacientes acometidos pelo vírus SARS-COV-2 que estejam em UTI.  Mas afinal, o que podemos esperar dos testes clínicos? Para responder a esta e outras perguntas, o SBTMO Entrevista conversou com Luiz Vicente Rizzo (foto acima, à esquerda), diretor de pesquisa do Instituto Israelita de Ensino e Pesquisa Albert Einstein (IIEP) e um dos coordenadores do Consórcio que irá liderar as pesquisas clínicas com plasma de convalescentes da Covid-19 no tratamento de pacientes acometidos pelo SARS-COV-2; e com José Mauro Kutner (foto acima, à direita) gerente médico do Departamento de Hemoterapia e Terapia Celular do HIAE e o investigador responsável no Einstein por este projeto. Ambos foram responsáveis por esclarecer diversas questões relacionadas a esta iniciativa. 

Em princípio, o Hospital Israelita Albert Einstein submeteu um protocolo para realizar os testes clínicos à Conep. A partir deste projeto preliminar, verificou-se a perspectiva de congregar esforços juntamente à outras instituições, no caso, o Sírio Libanês e os hospitais das Clínicas de São Paulo, Ribeirão Preto da USP e demais que buscam se associar conjuntamente. 

As fases iniciais dos testes clínicos estão em andamento e permitirão aos pesquisadores analisar a segurança desta conduta terapêutica, bem como verificar a eficácia dos anticorpos para SARS-COV-2 presentes no plasma contra a infecção contra a infecção em pacientes críticos, com síndrome do desconforto respiratório agudo (SDRA). 

Confira a seguir mais detalhes e saiba também como instituições interessadas podem fazer para integrar o Consórcio. 

SBTMO Entrevista: Qual o objetivo do Consórcio?

O objetivo do consórcio é expandir a possibilidade de estudar a utilidade do soro imune no tratamento das diversas fases da Covid-19. Essa possibilidade de congregar hospitais com características diferentes, contribuirá com a expansão da pesquisa e, consequentemente, nos possibilitará responder mais perguntas em relação ao tratamento. 

Poderemos analisar a segurança e a eficácia dos nossos resultados e comparar com os achados de países como China, Estados Unidos e Europa, que já iniciaram seus testes e têm obtido desfechos que se mostram promissores. 

Acredito que poder contar com diversas alternativas terapêuticas, como os anticorpos de indivíduos que se curaram da Covid-19, ou mesmo de medicamentos como a cloroquina, significa ampliar as chances de combatermos esta pandemia e salvarmos mais vidas. 

SBTMO Entrevista - Caso haja interesse de outras instituições ingressarem no consórcio, como devem proceder?

Como todo estudo clínico, é preciso manifestar interesse e ter os requisitos técnicos necessários. 

Não basta ter paciente disponível. Deve haver condições de incluir a quantificação dos anticorpos neutralizantes contra o vírus, isto posto, ser capaz de incluir um número significativo de pacientes. 

SBTMO Entrevista: Qual será a metodologia adotada?

Pode-se dizer que a metodologia é relativamente simples. Trata-se de um projeto Fase 1 / 2, cujo objetivo primário consiste em verificar a segurança e a eficácia do tratamento da Covid-19. Este é um estudo  de braço único, portando, o grupo controle será composto por pacientes que não usaram o plasma de convalescentes. 

SBTMO Entrevista: Quem poderá ser elegível a receber o tratamento?

Serão elegíveis a receber o plasma pacientes com 18 anos de idade ou mais e que estejam na UTI, com ventilação mecânica com ou não, bem como aqueles com quadro respiratório mais grave. Um aspecto importante para o receptor que será avaliado é o grau de resposta imune própria contra o SARS-CoV-2. 

SBTMO Entrevista: Qual deve ser o perfil do doador do plasma?

Além dos requisitos existentes para se doar sangue, plaquetas e plasma, o candidato à doação de plasma deste protocolo de pesquisa tem que ter tido a doença confirmada pelo teste de PCR.  O material será colhido por aférese. 

O candidato deve estar há mais de 14 dias sem sintomas. Apesar de a Covid-19 não ser transmissível por transfusão, um novo exame será realizado para confirmar que está negativo para o SARS-COV-2. 

Outro aspecto, é que o doador deve ter mais de 14 dias e menos de 45 dias de exposição. Isso se deve ao fato de que é o período em que o organismo do doador apresente maior nível de anticorpos. 

Muitos protocolos nos EUA demandam que se dose a quantidade dos anticorpos antes de colher o material do doador. No Brasil não dispomos destes testes, então, é preciso seguir esta “janela” para aumentar as chances de se alcançar a efetividade esperada do tratamento. 

 SBTMO Entrevista: Quais riscos pode haver no processo?

Aos doadores quase nenhum, apenas os já relacionados à doação habitual de sangue e plaquetas. Aos pacientes, os riscos já relatados na literatura em caso de transfusões de sangue, como TRALI e transmissão de infecções pré-existentes, mas cuja frequência é considerada extremamente baixa. 

Há ainda o que chamamos de “riscos teóricos”, ou seja, há pesquisas que indicam que se for infundido anticorpos em indivíduos que não os têm, pode ser que estes não desenvolvam as defesas a longo prazo.

SBTMO Entrevista: Há grupos de pesquisadores, como Hospital Irving da Universidade de Columbia, que estão aplicando o plasma como medida preventiva em populações de risco, como idosos que residem em instituições de longa permanência? 

De fato, temos acompanhado os estudos com plasma no contexto da prevenção. Ainda são incipientes, mas temos observado que devem começar a aparecer evidências, demonstrando se de fato é seguro e eficaz infundir o plasma em doentes mais precocemente ou, até mesmo, como medida preventiva. 

Nosso protocolo no Brasil tem caráter mais conservador, por serem os primeiros testes no contexto da Covid-19. Pode ser que, ao longo do tempo, e com base nas evidências que venham sendo publicadas, sejam feitos adendos em nosso protocolo inicial. 

SBTMO Entrevista – Há perspectiva de se fazer testes com uso de células mesenquimais?

Sim, o Einstein tem um protocolo aberto, também já aprovado, para realizar terapias com células mesenquimais de origem da medula óssea e/ou do sangue periférico. 

Para este protocolo, poderão ser aceitos os pacientes mais graves que já tenham sido submetidos a três terapias prévias, inclusive, plasma. Estes testes devem ser iniciados a qualquer momento. 

SBTMO Entrevista: Por fim, o que podemos esperar dos testes empreendidos pelo Consórcio formado para os testes clínicos com o uso do plasma?

O projeto se baseia em uma lógica técnica: o organismo do indivíduo curado da Covid-19 deve possuir anticorpos que poderão ser transfundidos para um paciente enfermo, gerando defesas capazes de combater o SARS-COV-12. 

Já há experiências pregressas que comprovam esta lógica, como vimos em epidemias como H1N1, SARS, MERs e Ebola, por exemplo. Há referências a este tipo de abordagem, inclusive, na época da gripe Espanhola. 

Houve as tentativas, com bons resultados, mas em estudos pequenos, que acabaram sendo descontinuados na medida em que vacinas foram sendo desenvolvidas e outras opções terapêuticas se mostraram eficazes. 

A expectativa, além de medir a segurança do tratamento, está em conseguir baixar os níveis do vírus no organismo dos doentes, tirando-o da condição de gravidade e, até mesmo, atingindo a cura.  O futuro nos dirá se estas alternativas funcionam.

 

 



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