SBTMO Entrevista - Frederico Luiz Dulley
19/01/2012

Com mais de duas décadas de experiência Frederico Luiz Dulley é um expoente em transplantes de medula óssea (TMO) no Brasil. Professor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo desde 1987, atualmente Livre- Docente e chefe do Transplante de Medula Óssea do Hospital das Clínicas, Dulley tem mais de 3.000 transplantes no currículo e criou a Jornada Paulista de Atualização em Transplante de Células Tronco Hematopoéticas e Onco-Hematologia, que em dezembro deste ano completará uma década.

Há três anos à frente da Sociedade Brasileira de Transplante de Medula Óssea (SBTMO), cargo que ocupará até o mês de agosto, quando assume a nova diretoria, o especialista conta como foi sua trajetória ao SBTMO Entrevista. Confira a entrevista abaixo.

SBTMO – Como começou a sua carreira e quando surgiu o interesse para trabalhar com TMO?
Frederico Dulley - Eu me formei em São Paulo, em 1978 e no ano seguinte fui para Curitiba, onde trabalhei no Hospital de Clínicas de Curitiba. Lá conheci o Dr. Eurípedes (Ferreira) e o Dr. (Ricardo) Pasquini. Eles realizaram o primeiro transplante de medula óssea no Brasil, neste mesmo ano (1979) e tive a oportunidade de acompanhar o segundo, em 1981. Foi aí que surgiu o interesse pelo TMO.

SBTMO - Como foi a sua especialização e como o senhor conciliou os estudos com a família?
FD – Em 1985 fui para o maior centro de TMO do mundo, em Seattle, como bolsista do CAPES. Lá era considerada a “meca” dos transplantes, havia 60 leitos para se ter uma ideia. Lá tive a oportunidade de trabalhar com o (Edward) Donnal Thomas, que ganhou o Nobel de Medicina em 1990. Fui para lá, sozinho, minha filha tinha três anos e meu filho tinha apenas um mês de idade. Infelizmente, naquele momento, a família teve que ficar em segundo plano.

SBTMO - E como foi quando retornou ao Brasil?
FD - Quando a gente volta, a adaptação demora um pouco. Voltei para Curitiba e fiquei seis meses. Depois fui para a Unicamp como responsável pela parte de oncohematologia. O hospital tinha acabado de ser inaugurado. Por fim, entrei nessa vaga na USP, para coordenar a implantação do TMO no Hospital das Clínicas.

SBTMO - E foi na USP que o senhor realizou o primeiro TMO de São Paulo?
FD – Isso. Na USP não havia nem a disciplina de TMO. Implementamos em 1987 e no ano seguinte fizemos o primeiro transplante de São Paulo pelo SUS. Na época só se fazia TMO em Curitiba e no Rio de Janeiro.

SBTMO E quantos transplantes o senhor já realizou?
FD – Sem contar os que foram feitos antes de 1988 (fora de SP), a nossa equipe tem mais de 3000 transplantes realizados. Para se ter uma ideia, nós chegamos a fazer 25 em um mês no HC. Um número expressivo, já que apenas dez centros no mundo atingem esta frequência.

SBTMO - O que o senhor acredita ser um desafio para o TMO no Brasil? Como está a questão dos doadores?
FD – As dificuldades são maiores no Norte e Nordeste. No Nordeste, por exemplo, não há leitos suficientes, equipes capacitadas. Não é toda cidade que pode fazer o TMO. Apesar de o Brasil ser hoje o terceiro maior banco de doadores do mundo, com 2 milhões de doadores, ainda é um desafio o baixo número de doadores compatíveis.

SBTMO – O senhor criou a Jornada Paulista de Atualização em Transplantes de Células-Tronco Hematopoéticas e Oncohematologia. Qual a importância deste encontro?
FD – A jornada foi criada para facilitar o acesso às novidades científicas aos profissionais envolvidos em TMO de São Paulo e que não podem comparecer nos congressos científicos, principalmente no ASH.

SBTMO - Sobre a sua gestão na SBTMO, quais pontos o senhor destaca?
FD - Acho que a reestruturação na comunicação, feita em conjunto com o Bouzas, com o novo site para os associados, que facilitou o acesso aos artigos científicos e dos trabalhos apresentados nos congressos, o envio de e-newsletters informativas, ferramenta que abriu mais um canal de comunicação com os associados.

SBTMO – Como o Brasil caminha em relação aos avanços em TMO?       
FD - O Dr. Bouzas (Luis Fernando Bouzas), com a sua genialidade, perspicácia e conhecimento, começou a desenvolver no País o transplante não aparentado. É uma especialidade que está crescendo muito mais que as outras, ainda com remédios caros e com várias fragilidades, mas estamos entrando junto com os países de primeiro mundo nessa nova modalidade terapêutica Temos caminhado a passos largos e eu vejo um futuro bastante promissor para a nossa especialidade.