Situação do sarampo no Brasil e recomendações
14/08/2018

DADOS EPIDEMIOLÓGICOS

O Sarampo é uma doença infecciosa exantemática aguda, extremamente contagiosa, que se transmite de pessoa a pessoa, por meio de secreções respiratórias.

Em 2016, o Brasil recebeu o certificado de eliminação da circulação do vírus do sarampo pela OMS, declarando a região das Américas livre do sarampo. Entretanto, a diminuição da cobertura vacinal no Brasil e mesmo em vários países desenvolvidos do mundo aumentou o número de indivíduos susceptíveis favorecendo o reaparecimento de surtos.

A eliminação sustentada do sarampo requer cobertura vacinal de pelo menos uma dose em 90% das crianças em idade pré-escolar e de 2 doses em 95% das crianças em idade escolar (1). Em 2017, a cobertura alcançou somente 83% do público-alvo (primeira dose) e 71% (segunda dose).

No momento, dois estados brasileiros (Amazonas e Roraima) apresentam níveis epidêmicos da doença. O aumento do número de casos na região norte do país está relacionado ao surto na Venezuela, cuja atual situação sociopolítica e econômica ocasiona um intenso movimento migratório, favorecendo a propagação do vírus.

Já foram registrados casos no Rio de janeiro, Rio Grande do Sul, Pará, São Paulo e Rondônia. Com exceção de 2 casos (RS e SP) o genótipo circulante é o D8, idêntico ao vírus identificado na Venezuela, Roraima e Amazonas.

SARAMPO EM TRANSPLANTADOS DE MEDULA ÓSSEA

A primeira e maior série de casos de sarampo publicada em receptores de TCTH é do Brasil, e foi registrada durante o surto de 1997. Na ocasião, dada a limitação do uso de vacina atenuada nesses pacientes, foi feito um levantamento soroepidemiológico para identificar os indivíduos susceptíveis. Sarampo ocorreu em 8 dos 54 susceptíveis (taxa de ataque = 14,8%). Não foram observadas complicações neurológicas, mas um paciente desenvolveu pneumonite por sarampo requerendo hospitalização (2).

Em 2015 em Shangai, foram registrados 23 casos de sarampo em crianças com câncer e doenças hematológicas malignas (21 casos) e pós-TCTH (2 casos). Nesta série, 56,5% dos casos apresentaram complicações e 5 (21,7%) morreram de pneumonia e falência hepática aguda. Provável transmissão intra-hospitalar ocorreu em cerca de 90% dos casos (3). De acordo com as publicações, as crianças e pacientes com DECH crônica ou nos primeiros meses do TCTH têm maior risco de complicações do sarampo (2–4).

VACINAÇÃO CONTRA O SARAMPO

A vacina contra o sarampo é uma vacina de vírus vivos e atenuados. Está recomendada para receptores de TCTH após o segundo ano do transplante, e que não estejam fazendo uso de drogas imunossupressoras. Nesse período, estima-se que mais da metade dos pacientes seja susceptível ao sarampo (2).

Durante surto de sarampo no Brasil, a antecipação da vacina após o primeiro ano do transplante mostrou-se segura e eficaz em receptores de TCTH sem uso de imunossupressores, podendo ser utilizada nessas situações (5).

Antes desse período (d0-d365), a proteção contra o sarampo nos receptores de TCTH se apoia na imunidade de rebanho (herd immunity), e, portanto, todos os contatos diretos do paciente e profissionais de saúde devem estar imunes ao sarampo.

RECOMENDAÇÕES

A vacina a ser utilizada é a tríplice viral (Sarampo-Caxumba-Rubéola), que está disponível gratuitamente nos postos de saúde e CRIEs.

Receptores de TCTH que nunca foram vacinados contra o sarampo pós-transplante devem receber 2 doses da vacina com intervalo de 1 mês, independentemente da idade. Pacientes que já receberam a vacina, deverão receber uma dose de reforço.

  •  Receptores de TCTH entre d0 e d365:  NÃO VACINAR. Em situação de risco (contato com sarampo ou vive ou vai viajar para cidade onde há surto) considerar o uso de imunoglobulina endovenosa (100 a 400 mg/kg).
     
  • Receptores de TCTH após 1 ano do transplante:  Vacinar apenas pacientes sem uso de imunossupressão e em situação de risco (contato com sarampo ou vive ou vai viajar para cidade onde há surto). Em pacientes recebendo imunossupressão, considerar uso de imunoglobulina endovenosa (100 a 400 mg/kg).
     
  • Receptores de TCTH após 2 anos do transplante:    Vacinar os pacientes sem uso de imunossupressão. Em pacientes recebendo imunossupressão, considerar uso de imunoglobulina endovenosa (100 a 400 mg/kg).
     
  • Contactuantes domiciliares e profissionais de saúde:    Devem receber uma ou 2 doses da vacina de acordo com a recomendação do Ministério da Saúde. Indivíduos que nunca tomaram a vacina ou sem comprovação de vacinação pregressa deverão tomar 2 doses da vacina com intervalo de um mês.
    ≥ 50 anos: não necessitam vacinação
     

PROFILAXIA PÓS-EXPOSIÇÃO AO SARAMPO

A vacina também pode ser utilizada na profilaxia-pós-exposição, ou seja, em indivíduos que ainda não receberam a vacina e que tiveram contato com caso suspeito ou confirmado de sarampo. Receptores de TMO poderão receber a vacina como profilaxia pós-exposição até 6 dias após o contato, dentro das condições descritas acima.

POLIOMIELITE

ATENÇÃO: Os postos de Saúde estarão vacinando também contra a poliomielite. A vacina inativada (VIP) será oferecida para crianças que nunca foram vacinadas, e a vacina atenuada (VOP, gotinha) será oferecida para as crianças que já receberam uma ou duas doses da VIP.


RECEPTORES DE TCTH E CONTACTUANTES DOMICILIARES DEVEM RECEBER SOMENTE A VACINA INATIVADA (VIP)

 
REFERÊNCIAS

1.     Gay NJ. The theory of measles elimination: implications for the design of elimination strategies. J Infect Dis. 2004;189 Suppl(Suppl 1):S27–35.
2.     Machado CM, Gonçalves FB, Pannuti CS, Dulley FL, De Souza V a UF. Measles in bone marrow transplant recipients during an outbreak in São Paulo, Brazil. Blood. 2002;99(1):83–7.
3.     Ge YL, Zhai XW, Zhu YF, Wang XS, Xia AM, Li YF, et al. Measles Outbreak in Pediatric Hematology and Oncology Patients in Shanghai , 2015. 2017;130(11).
4.     Yoo J-H, Lee D-G, Choi SM, Choi J-H, Park Y-H, Kim Y-J, et al. Infectious complications and outcomes after allogeneic hematopoietic stem cell transplantation in Korea. Bone Marrow Transplant. 2004;34(6):497–504.
5.     Machado CM, de Souza V a UF, Sumita LM, da Rocha IF, Dulley FL, Pannuti CS. Early measles vaccination in bone marrow transplant recipients. Bone Marrow Transplant. 2005;35(8):787–91.