SBTMO Entrevista - Vergílio Colturato - presidente da Sociedade (Gestão 2015-18)
07/03/2016

SBTMO Entrevista

Com duas décadas de dedicação ao transplante de medula óssea, o presidente da SBTMO – diretoria 2015-18 -, Vergílio Antonio Rensi Colturato, compartilha em entrevista suas expectativas sobre a gestão da Sociedade, as percepções quanto ao panorama do procedimento no Brasil e também avalia o desenvolvimento científico e educacional no País.

Além de estar à frente da Sociedade, atualmente é coordenador do Serviço de Transplante de Medula Óssea do Hospital Amaral Carvalho (HAC), em Jaú, interior de São Paulo, e médico do Departamento de Oncologia e Hematologia na instituição (cv Lattes).

Colturato conta ainda como começou sua trajetória no TMO e confidencia o que o move dia após dia na prática de suas atividades!  Conheça um pouco da história deste botucatuense, que hoje reside em Jaú, interior de São Paulo, e alcança pacientes de todo o território nacional, por meio do serviço que coordena juntamente a uma equipe multiprofissional no Hospital Amaral Carvalho – referência em TMO na cidade. Confira!

SBTMO Entrevista: Qual sua avaliação quanto ao panorama dos transplantes de medula óssea no Brasil?

O programa de transplante de células tronco hematopoieticas (TCTH) é bem estabelecido, possui mais de 30 anos de atividade no Brasil. Para a SBTMO é uma satisfação acompanhar o crescente credenciamento de novos serviços, tanto autólogos como alogênicos, aparentados e não aparentados com doadores voluntários. O volume de procedimentos no País tem sido ampliado e hoje realizamos mais de dois mil TCTH por ano. No caso do alogênico não aparentado verificamos que tem demonstrado seguir o mesmo caminho, embora ainda haja um cenário de déficit pela realização do procedimento, frente à demanda expressiva de pacientes elegíveis ao procedimento.

Para atender a esta crescente demanda a SBTMO vê como perspectiva extremamente favorável a ampliação do treinamento e aperfeiçoamento de recursos humanos, por meio de programas de residência médica estabelecidos dentro de instituições em diversas localidades que ofertam os serviços de TCTH.

Este movimento traz animo novo à Sociedade e a especialidade com o um todo!

Especificamente dentro da SBTMO temos valorizado além dos treinamentos de médicos e equipe multiprofissional, os programas de educação continuada, sendo a principal atividade de cunho educacional e científico, o congresso anual da entidade, que chega a sua 20ª edição neste ano.

Ainda há os encontros promovidos no Congresso da Associação Brasileira de Hematologia, Hemoterapia e Terapia Celular (ABHH) e o Board Review do Hospital Israelita Albert Einstein, em que temos atuação neste sentido de troca de experiências e conhecimento.

SBTMO Entrevista: Sobre o Congresso, o que os participantes podem esperar para esta edição?

Neste ano de 2016 alcançamos a 20ª edição do Congresso, o que demonstra a robustez e o importante papel que o encontro representa no campo da atualização educacional, do desenvolvimento científico e na promoção do intercâmbio de conhecimento entre especialistas de todo o  Brasil e, também, do cenário internacional!

O encontro será em Fortaleza (CE), nos dias 24 a 27 de agosto! Teremos uma programação extremamente estimulante e com ampla abordagem nos diversos campos que permeiam o universo do TCTH e, também, da terapia celular. Vale à pena participar!

SBTMO Entrevista: No primeiro ano de gestão quais pontos podem ser destacados?  

Em 2015 alcançamos a publicação de importante portaria, que foi a inclusão do TMO como opção terapêutica para pacientes com Doença Falciforme. Há tempos esta medida era esperada. Ainda acompanhamos alguns encaminhamentos, como o ressarcimento do procedimento, mas foi um ponto fundamental no processo do TMO nacional.

Ainda no final do ano anterior (2015) foi realizada reunião no final do ano passado fizemos reunião plenária da ABHH, durante o HEMO, no qual membros da SBTMO participaram de uma sessão pública para a votação do Protocolo Clínico e Diretriz Terapêutica (PCDT) de Imunossupressão Após o Transplante de Medula Óssea. Estivemos presentes para aprovar o documento e discutir os critérios e diagnósticos do tratamento da doença do enxerto aguda e crônica. A importância deste protocolo é de tê-lo como base para a incorporação de imunossupressores que até hoje não foram incluídos no Sistema Único de Saúde (SUS).

Temos fortalecido as atividades dos grupos de estudo da SBTMO em suas diferentes áreas, o que é fundamental no processo de crescimento da produção científica. Inclusive, já estão programadas três reuniões regionais para este primeiro semestre de 2016. As atividades integram o plano de desenvolvimento educacional, científico e do aperfeiçoamento da prática diária de todos profissionais que compõe a equipe de TMO.

Os encontros acontecem nas cidades de Ribeirão Preto, Campinas e São Paulo, em março, abril e maio, respectivamente. Em breve vamos noticiar mais informações em nosso site, redes sociais e em nossa newsletter quinzenal.

Adiantamos que serão momentos de atualizações, revisões e apresentações de protocolos novos, além das discussões sobre o panorama do TMO x conjuntura atual do Brasil – como isso tem impactado na situação econômica dos transplantes, alternativas para buscar recursos. Buscaremos decidir estratégias junto à politica de transplantes do Ministério da Saúde.

SBTMO Entrevista: Como avalia a produção científica nacional?

Temos à frente um vasto campo para a produção científica nacional, bem como serviços e pesquisadores qualificados para empreender pesquisas no campo do TMO, da terapia celular.

Embora haja uma preocupação com o fomento a novos estudos devido a atual conjuntura política, econômica e social do País, o que fragiliza o incremento em financiamento da ciência, ainda sim a expectativa é que a produção cientifica sofra um aumento ainda maior a partir deste ano.

Inclusive, estamos encaminhando um novo protocolo de estudo terapêutico multicêntrico com a utilização de células mesenquimais, uma perspectiva que tem inicio já neste primeiro semestre de 2016.

SBTMO Entrevista: Como teve início sua história no TMO?

Me formei em medicina em 1979, na UNESP (Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho). Tenho vivência nos campos da oncologia geral e pediátrica, da hematologia/oncohematologia, de biologia molecular, citometria de fluxo, mas foi no TMO que desenvolvi minha linha de atuação.

Ao longo de minha trajetória vivenciei várias interfaces do TMO. Neste ano, inclusive, completo duas décadas desde o meu primeiro transplante. Foi em 1996, no Serviço de Transplante de Medula Óssea do Hospital Amaral Carvalho (HAC), em Jaú, interior de São Paulo, o qual hoje atuo como coordenador, juntamente com uma equipe multiprofissional.

Temos realizado uma média de 200 procedimentos por ano na unidade. Isso é possível porque a equipe caminha junta, rumo a um mesmo objetivo: a excelência nos processos e em seu desempenho, o que possibilita os melhores resultados aos nossos pacientes – os da região e também aqueles de diferentes estados do país que recebemos. 

Isso traz um nível de realização muito grande e, também, uma responsabilidade crescente no campo do TMO nacional. Em 2004 fomos convidados pelo MS (Ministério da Saúde) a entrar no regime de não aparentado, sendo um dos serviços que mais pratica este tipo de TMO no País.

SBTMO Entrevista: Quais fatores considera serem fundamentais na ressignificação de sua prática diária no campo do TMO? 

Sou o primeiro médico em minha família, mas creio que meu envolvimento pelo TMO estimulou a “hereditariedade” pela profissão. Hoje, meu filho está finalizando a residência em TCTH no serviço do HAC. Isto, sem dúvida, reforça estar no caminho certo de minha profissão.

Dentro da esfera assistencial em que atuo, é confortante receber sinais do agradecimento dos pacientes, que estão dentro de um processo terapêutico de alta complexidade, associado a elevado nível de riscos e comorbidades, com uma data de início do tratamento, mas sem uma data prevista para o término. É muito gratificante receber sinais da confiança daqueles a quem atendemos diariamente. É um reforço positivo para quem escolhe uma profissão como esta!

 

Tive a certeza de que estava no caminho certo no meu primeiro transplante de medula óssea. Era um alogênico, em um paciente de Botucatu, que inclusive conhecia, com leucemia mieloide crônica, em fase inicial. Quando demos alta a ele, foi uma sensação indescritível. Afinal, nossa equipe atuava num cenário embrionário. A partir dai os outros tiveram sucesso! Todos são importantes, cada momento é único, mas em termos de um marco, este foi o ponto de partida na minha trajetória! 

(Imagem: Equipe do Serviço Serviço de Transplante de Medula Óssea Hospital Amaral Carvalho - Jaú-SP)