SBTMO na revista Crescer
26/05/2015

Confira parecer da Sociedade sobre TCTH aparentado na reportagem: "Filho doa medula para salvar a mãe"

Gabriel não foi um filho planejado. A servidora Fabiana Ikeda ficou em choque ao descobrir que seria mãe aos 22 anos. Mal sabia o que o futuro lhe reservava e que o menino salvaria sua vida.

Hoje, aos 37 anos, também é mãe de Tarsila, 10, e seu primogênito já tem 15 anos – idade, tamanho e peso ideais para que pudesse doar medula óssea à servidora, depois de ser diagnosticada com leucemia. “Renasci do meu filho”, contou Fabiana, após passar por mais de cinco meses de internação, várias sessões de quimioterapia e pelo transplante, realizado em fevereiro deste ano. “Na época que engravidei foi um susto. Agora, tudo se encaixa e vi que aconteceu na hora que tinha que acontecer porque foi a vez dele me dar a vida.”

O diagnóstico
A mãe de Gabriel e Tarsila começou a desconfiar de que algo não estava bem quando passou a se sentir muito cansada por dias seguidos. “No início, achava que era coisa de mãe que cuida da casa, dos filhos, que trabalha fora. Não imaginava que era tão sério. Tentei descansar, mas continuava mal e decidi procurar um médico”, diz.

Ao ir a um pronto-socorro em Brasília, onde trabalha e mora desde 2013, a paulistana conta que foi diagnosticada com outra doença, por sentir dores nos ossos. “A médica me receitou um relaxante muscular e disse para procurar um especialista, porque estava com fibromialgia”, lembra. “Tomei o remédio e continuava ruim, então, procurei outro médico e pedi para investigar a possibilidade de leucemia, já que apareceram manchas no meu corpo também.”
A desconfiança surgiu por causa da morte de sua mãe, em 10 de outubro de 2011. Apesar de não ter sido diagnosticada com leucemia, Fabiana suspeitava que ela tivesse a doença. “Como é genética, insistimos para o médico investigar essa possibilidade”, afirma. Em 10 de outubro de 2014, o resultado: era mesmo leucemia.

Tão logo recebeu o diagnóstico, Fabiana foi internada e começou a fazer quimioterapia para ‘zerar a doença’. A médica hematologista Lúcia Silla, presidente da SBTMO (Sociedade Brasileira de Transplante de Medula Óssea) explica que o paciente tem que zerar os glóbulos brancos para então receber a doação. “O paciente no transplante de medula óssea troca o seu sistema imunológico com a do doador”, diz.

Começava aí outro desafio, que seria encontrar alguém geneticamente compatível para fazer a doação de medula óssea. Segundo a SBTMO, a chance é de 1 para cada 100 mil. A hematologista conta que, em casos de leucemia, primeiro é analisada a compatibilidade entre irmãos do paciente para depois buscar um doador sem grau de parentesco. O único irmão de Fabiana não era compatível.

A busca pelo doador
No caso de descendente de japoneses, situação de Fabiana, a dificuldade para encontrar um doador era ainda maior. Isso porque, segundo a presidente da SBTMO, a maior chance de compatibilidade é encontrar alguém dentro da mesma raça, no entanto, há poucos orientais cadastrados. Dos mais de 3,2 milhões de possíveis doadores cadastrados, menos de 5% são de orientais.

“Como não achamos, os médicos disseram que a terceira possibilidade seria entre os pais ou filhos do paciente, desde que tivessem condições para isso”, conta. É aí que entra Gabriel, que mesmo não sendo seu possível doador, a princípio – uma vez que a compatibilidade não chegava a 100% –, deu uma nova vida à Fabiana. “Só tive essa chance porque fui mãe jovem”, diz.

No caso de Fabiana, o transplante feito foi o chamado haploidêntico, onde o doador é apenas 50% compatível. Apesar de ser mais arriscado, com grande risco de rejeição, a médica diz que tem sido a opção quando não se encontra um outro doador.

“Fiz o transplante no dia 20 de fevereiro e no dia 7 de março, tivemos a confirmação que a medula pegou, ou seja, que não houve rejeição do transplante. Consideramos agora que tenho duas datas de aniversário”, brinca a servidora, que em abril pode finalmente voltar para casa.

Em fase de recuperação
Fabiana faz acompanhamento semanal com o oncologista em Brasília e, segundo ela, a expectativa é que até dezembro já tenha vida normal. Ela comenta que a sua recuperação surpreendeu os médicos. A menos de cem dias do transplante, passa a maior parte do tempo em casa ao lado dos filhos e do marido, Daniel Gonçalves de Oliveira, 39, que largou o emprego e desacelerou o doutorado que fazia para poder acompanhar a mulher enquanto estava em São Paulo.
Para a paciente, o mais difícil durante todo o período foi ficar longe dos filhos. “Eles são meus heróis, passaram muito tempo longe dos pais, mas ficaram bem. Mostraram uma força que nos surpreendeu”, conta. Depois de enfrentar uma doença tão grave, sem saber se iria ou não se recuperar, Fabiana diz que mudou muito e passou a valorizar as coisas mais simples da vida.

Questionada se tem algum sonho, como viajar, ela explica que hoje o mais importante é estar com a família e os amigos, e que gostaria de se dedicar a um trabalho social. “Penso em fazer campanhas para incentivar as pessoas a se cadastrarem como doadores de medula ou ainda ajudar pacientes com câncer.”

COMO SER UM DOADOR
Para se candidatar como doador, basta fazer um exame de sangue em um hemocentro. Depois, é efetuado o cadastro e, se você for compatível com algum paciente, é acionado para fazer a doação. Segundo a hematologista Lúcia Silla, o procedimento é simples e indolor. O material é retirado dos ossos da bacia, por meio de punções, sob anestesia, e se recompõe em apenas 15 dias. “As pessoas que estão decididas a doar precisam manter seu cadastro atualizado nos hemocentros, pois, muitas vezes, achamos um doador e não o encontramos mais. Outra dificuldade é a pessoa se cadastrar e na hora que achamos um doador, ela desistir. Precisa ter muita consciência sobre a importância de doar e salvar vidas”, comenta a médica.