Cientistas brasileiros chegam mais perto de tratamento com células-tronco para o Mal de Parkinson
10/04/2015

Células-tronco embrionárias tratadas com medicamento contra câncer se mostraram uma estratégia segura e eficaz para tratar o Parkinson em camundongos, reduzindo sintomas sem gerar efeitos colaterais

No mês de atenção ao Parkinson, abril, cientistas brasileiros do Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino (IDOR) e da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) anunciam um importante passo em direção à terapia celular contra o Mal de Parkinson. Usando uma substância já provada para combate ao câncer, os pesquisadores conseguiram realizar em animais implantes de células-tronco embrionárias bem sucedidos, reduzindo os sintomas da doença sem gerar efeitos colaterais.

O Mal de Parkinson, que afeta hoje mais de 10 milhões de pessoas pelo mundo, é causado pela degeneração dos neurônios dopaminérgicos, que contém dopamina — um neurotransmissor, entre outras coisas, envolvido no controle de movimentos corporais. O tratamento corrente para a doença inclui medicamentos que geram diversos efeitos adversos e não conseguem deter o seu avanço.

Estudos recentes com animais têm indicado que o transplante de células-tronco embrionárias pode reverter a degeneração dos neurônios dopaminérgicos e restaurar a função motora. As células-tronco tem a capacidade de se transformarem em qualquer tecido do corpo e uma vez implantadas no cérebro do animal doente se diferenciam em neurônios dopaminérgicos. No entanto, até agora, o procedimento tinha se mostrado pouco seguro, por envolver um alto risco de formação de tumores depois do transplante.

Para resolver esse problema, os pesquisadores testaram, pela primeira vez, tratar, antes do transplante, as células-tronco de camundongos com mitomicina C — uma substância já prescrita no tratamento de câncer de estômago. A substância atua na replicação do DNA das células e previne o seu crescimento descontrolado, que é a causa dos tumores.

Para o experimento, foram usados camundongos com os mesmos sintomas de um paciente de Parkinson, como falta de coordenação motora. Os animais foram divididos em três grupos. O primeiro, o grupo controle, não recebeu o implante das células-tronco. O segundo recebeu as células-tronco comuns, não tratadas com mitomicina C. E o terceiro recebeu as células tratadas com a substância.

Depois de injetadas cerca de 500 mil células-tronco, os animais do segundo grupo, do implante tradicional, mostraram melhoria nas funções motoras, mas morreram entre 3 e 7 semanas depois em decorrência de tumores. Por outro lado, os animais que receberam as células-tronco tratadas exibiram melhoria nos sintomas do Parkinson e sobreviveram por 12 semanas sem a formação de tumores. Quatro desses animais forma monitorados por 15 meses e ficaram saudáveis durante todo este período.

Além disso, os cientistas mostraram em testes in vitro que tratar as células-tronco com a mitomicina aumentou a liberação de dopamina em quatro vezes nos neurônios diferenciados.

“A simples estratégia de expor as células-tronco a um medicamento contra o câncer tornou o transplante de células-tronco uma opção mais segura, eliminando o risco de formação de tumores”, diz o líder do estudo, o neurocientista do IDOR e professor da UFRJ Stevens Rehen.

A descoberta, publicada no periódico Frontiers in Cellular Neuroscience, abre caminho para que os pesquisadores iniciem testes clínicos usando células-tronco para tratar Parkinson e outras doenças neurodegenerativas.

“Nossa técnica usando a mitomicina C pode apressar os ensaios clínicos com células-tronco para tratar várias doenças em humanos”, diz Rehen. “É o primeiro passo para tornar esse tipo de tratamento possível.” Atualmente, não existe no Brasil tratamento aprovado com células-tronco para doenças neurodegenerativas.

Fonte: Jornal da Ciência