Info SBTMO Entrevista - Lúcia Silla
29/10/2012

 – presidente SBTMO (gestão 2012-15) -  

A gaúcha Lúcia Mariano da Rocha Silla, nasceu em Santa Maria, uma região interiorana do Rio Grande do Sul. Em sua família, a medicina e a advocacia eram tradição. E, movida por um forte desejo ajudar ao próximo, especificamente, os índios do Xingu, que Lúcia optou pela Medicina como profissão.  

Entretanto, com o passar do tempo, este sonho deu lugar a um grande amor pela biologia celular e hoje, ela participa de um projeto de cunho social no campo da saúde, o que considera o “seu Xingu”.  

Quanto às razões que a levaram à escolha do transplante de medula óssea como área de atuação, Lúcia considera ter sido pelo fato de para ela o “TMO é a expressão mais completa da biologia celular”. 

Hoje, além de estar à frente da SBTMO, atualmente Lúcia é professora da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS); é coordenadora do Programa de Transplante de Medula Óssea e do Centro de Terapia celular do Hospital de Clínicas de Porto Alegre, entre outras funções.  

Para ela, presidir uma Sociedade como a SBTMO representa um grande desafio. Lúcia era a vice-presidente da Sociedade na gestão do Professor Júlio César Voltarelli, que faleceu no início deste ano. Por isso, considera ter assumido o cargo com responsabilidade redobrada: cumprir o papel de gestora e, sobretudo, de honrar a memória e as ideias do professor e amigo, Júlio.  

Confira agora a entrevista de Lúcia à equipe do Info SBTMO.  

Info SBTMO – Dra. Lúcia, como se deu a escolha da Medicina?

Lúcia Silla - Por tradição. Venho de uma família que possui dois ramos, o dos médicos e dos advogados. Meu avô e meus tios seguiram a medicina e eu segui pelo mesmo caminho. 

Meu tio, Dr. José Mariano da Rocha, foi fundador da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), primeira federal fundada fora de uma capital, isso em 1960, época em que as UFs eram estabelecidas apenas nos grandes centros. Minha tia, Maria Clara Mariano da Rocha, se tornou a primeira catedrática mulher da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Ela foi pediatra.

E foi convivendo com este ambiente que teve início a minha paixão pela Medicina. Mas, o que me impulsionou mesmo foi a vontade de ajudar ao próximo, na época, especificamente aos índios no Xingu. Era o que eu pretendia fazer. Assim, esse foi o meu primeiro fator motivador. 

Entretanto, ao entrar na faculdade, com meus 20 anos, me apaixonei definitivamente por Citologia, pela biologia celular, especificamente. Acabei não indo ao Xingu, o que de certa forma criou dentro de mim uma espécie de vazio, pois me encantei pela ciência, mas ainda pensava nos índios. Então, hoje atuo em um projeto direcionado à saúde pública da população, com foco em anemias e prevenção de doenças hematológicas graves. Este se tornou o meu “Xingu”.

E como decidiu seguir a hematologia?

Escolhi a hematologia, primeiro pelo fato de os pacientes serem extremamente graves e em estado quase sempre desesperador. Então essa foi uma forma de tentar ajudá-los. Este foi o aspecto humano da escolha. No campo técnico, eu já tinha conhecimento das pesquisas envolvendo leucócitos e decidi seguir este caminho.

Info SBTMO - O que a levou a optar pelo TMO?

Lúcia Silla - Porque o TMO é a expressão mais completa da biologia celular.

Info SBTMO Há dois meses a sra. assumiu a presidência da SBTMO. O que representa esta empreitada?

Lúcia Silla – Considero uma grande responsabilidade, pois assumo a frente da SBTMO pelos próximos três anos com encargo redobrado. Além de cumprir meu papel na gestão da entidade, buscarei fazê-lo de forma a honrar a memória e as ideias do professor e amigo, Júlio César Voltarelli, que nos deixou no início deste ano. Como era sua vice-presidente, fui nomeada em meio a esta triste circunstância. Quero fazer jus às ideias do Júlio, à maneira extremamente associativa que ele tinha de se relacionar com toda a sociedade, de integrar a todos.

Info SBTMO Como define a tônica desta gestão?

Lúcia Silla - A grande ênfase desta presidência, em consonância com as expectativas do Júlio, será a integração, o reforço e a capacitação das equipes multidisciplinares.

Para tanto, buscaremos incentivar a realização de reuniões multidisciplinares e publicaremos os encaminhamentos, o que acreditamos que será uma força no sentido de adequar e até compor guidelines quanto à prática do TMO no Brasil, o que deverá se refletir na qualificação da prática diária dos especialistas.

A sra. mencionou ser fundamental manter uma equipe multiprofissional reforçada, estruturada e integrada. Qual impacto disso nos TMOs?

Lúcia Silla - Como transplantadora, tenho a convicção de que para haver sucesso no resultado do transplante é fundamental a integração do médico com a enfermagem, a nutrição, a psicologia e a farmacologia, entre outros. Essa será a tônica desta gestão.

O trabalho em TMO é enorme, por isso temos de reforçar as equipes de apoio. Há muito a se fazer. Não se pode fazer um TMO sozinho, pois esta é uma atividade totalmente feita em grupo. Inclusive, um dos prêmios que a SBTMO entrega em seus congressos anuais à categoria pôster é o “Prêmio Fani Job de melhor trabalho na área multidisciplinar”.

Fani Job foi precursora do TMO no estado do Rio Grande do Sul e, assim como Júlio, foi defensora da integração entre os agentes do transplante, por isso instituí em 2007, esta honraria como forma de homenageá-la por suas contribuições à especialidade. Neste mesmo ano presidi o Congresso da SBTMO, que foi realizado em Porto Alegre (RS).

No momento em que você tem uma equipe coesa, trabalhando em sintonia, você tira a carga ou pelo menos divide a carga de uma maneira mais equânime e torna a especialidade mais atrativa, refletindo no paciente, na eficácia do tratamento.

Info SBTMO E quais serão os demais eixos norteadores?

Lúcia Silla – Será dada continuidade à manutenção das reuniões de diretrizes brasileiras em células-tronco hematopoiéticas (consensos). Neste ano de 2012, foi realizado o segundo encontro, sob a coordenação do Dr. Bouzas (Luis Fernando Bouzas1º tesoureiro), e este foi um dos avanços da última gestão que preservaremos e fomentaremos. Por meio das reuniões, podemos discutir e confrontar a realidade brasileira dos diversos serviços de transplantes. Com isso, podemos traçar parâmetros em relação ao TMO e balizar os direcionamentos do Ministério da Saúde quanto à terapêutica.

Esta nova gestão também dará continuidade as bases já lançadas por seus antecessores de aproximação com as sociedades internacionais, sobretudo no que diz respeito ao programa de registros de resultados dos TMOs no Brasil. Grande parte dos centros de transplantes, sobretudo os mais ativos do Brasil, faz parte de um registro internacional, do americano ou do europeu. Isto significa a existência de um banco de dados enorme, pois a cada novo transplante, você entra com a doença, o condicionamento, células infundidas, enfim, todos os detalhes necessários para que possa ter um panorama dos transplantes em todo o mundo.

Outro aspecto a ser conservado e, sobretudo, estimulado, diz respeito ao âmbito da educação e ciência, por meio do apoio no processo de obtenção de bolsas e convênios com sociedades internacionais, com objetivo de realizar um fellowship, por exemplo, ou até mesmo abrir a perspectiva de apoiar uma pessoa apoiada pela Sociedade no que cabe a obtenção de recursos provenientes de agências financiadoras, para fins de formação de profissionais.

Em relação a este intercâmbio, serão mantidos os grupos de trabalho formados neste ano durante o XVI Congresso da SBTMO?

Lúcia Silla - Esta foi uma iniciativa pioneira que trouxemos para o nosso encontro que buscaremos manter sob a chancela da SBTMO, a exemplo do que vem ocorrendo na Europa e nos Estados Unidos.

Diferentemente dos consensos, os grupos tem outro caráter. Eles visam o desenvolvimento de estudos cooperativos entre os diversos centros transplantadores. Entretanto, precisamos reforçar no Brasil, tanto no âmbito das sociedades de especialidades quanto das agências de fomento, que estas pesquisas não devem se restringir apenas ao campo das diversas doenças candidatas ao TMO como terapêutica, mas devem abranger a realização de ensaios clínicos. Estamos maduros para encarar esta empreitada. Já existem, por exemplo, alguns ensaios de exequibilidade, de segurança e de eficácia. Precisamos dar ênfase a isso.

Trata-se de um grupo aberto. A única prerrogativa é ser membro da SBTMO, inclusive os não transplantadores. Porque isto faz parte da SBTMO e deve sair nas publicações com a chancela da Sociedade.

Info SBTMO – Por fim, o que representa a SBTMO para a sra.?

Lúcia Silla - A SBTMO é uma sociedade muito bem organizada e homogênea, no que cabe aos elevados aspectos da formação técnica-científica, característica notória nos 16 congressos promovidos pela entidade; na elaboração de guidelines e produção de livros; entre outros. É uma Sociedade que, embora ainda pequena, tem personalidade, força e reconhecimento no meio nacional e internacional. Temos muito a avançar e estamos neste caminho!